quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Samba barbarismo - samba barbarismo (2017)...




O "samba", enquanto processo artístico e "cultural" produzido pelas classes populares brasileiras, marco da experiência urbana racializada outrora duramente reprimido e barbarizado em corpos negros, tornou-se, no processo da nação, símbolo maior da representatividade coletiva, cooptado pelo estado e pelo mercado. O samba-símbolo-do-Brasil percorreu ditaduras e pseudo-democracias para chegar aos dias atuais altamente coevo com o racismo estrutural e com as políticas privativa-estatais quase nada populares. Por outro lado, fervilha em produções multifacetadas e antropofágicas extraordinariamente criativas por todo o Brasil, incorporando formas mutantes, inclusive transnacionais, "ancorado nos usos 'selvagens' da tecnologia", como gosta de pensar o intelectual baiano Osmundo Pinho (de quem emprestamos o título do disco). Assim, percorrendo esta corda bamba, o "samba" habita tamanha contradição e talvez já não faça questão de representar nem nação nem a imagem cristalizada de si mesmo. Relatos fictícios e/ou pseudo-biográficos de um autor que persegue cotidianamente ruas, coletivos e singularidades históricas. Passinhos de revide, contragolpes. Grooves dançantes e frenéticos, resultados de alguma improvisação que rolou durante as gravações. Um cavaquinho valente enfrentando duas guitarras. Polifonias rítmicas. Interpretação apaixonada de quem vive o hoje. Frevo que comemora o erro. Marcha que não encerra a dúvida. "Hora Marcada" é uma regravação, cantada originalmente em Soledad por Bjanka Vijunas, e coube no enredo do disco. "Pedras palavras" também não é original, nasceu primeira com a NÃ e deve entrar no segundo álbum da banda. "Sete flechas" aponta para um devir revolucionário enquanto essência humana, o que cabe bem no corpo-e-alma de nossas duas participações, Marco Nalesso e Acauã. Samba barbarismo busca alguma ousadia, ou fôlego que seja. Reflete sobre (con)tradições. Reverencia quem nunca se rendeu. Reconhece os riscos. Feito através de relações não-monetarizadas, na política dos afetos. Ou em busca dela...
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Um comentário:

  1. Sou fã da página de vocês, mesmo! Mas por vezes eu queria apenas saber quem produziu o álbum, quem participa, fez os arranjos e tal, e encontro apenas um texto cheio de palavras rebuscadas que num releese feito pra agradar não sei quem... Fica a dica. Saudações musicais!

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